Jornalismo é como sedução, diz Gay Talese
Nome fundamental do ofício no século 20, repórter veterano falou em São Paulo sobre seus métodos de trabalho
No país para Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, americano fez ontem palestra na Folha
IVAN FINOTTI
DE SÃO PAULO
Para o jornalista americano Gay Talese, o repórter é um sedutor que
conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela.
Talese, 80, ilustrou bem o que quer dizer, ontem, em uma palestra de uma hora e meia para jornalistas na
Folha. No encontro, contou histórias de suas reportagens, como "Frank Sinatra Está Resfriado", e comentou seus métodos de trabalho.
Sem celular, notebook ou tablet, Talese anda com pequenos cartões para escrever o que vê ou precisa saber.
O veterano, que veio ao Brasil participar do Congresso Internacional
Cult de Jornalismo Cultural, é considerado pai do "new journalism" (novo
jornalismo), ou jornalismo literário, caracterizado por reportagens que
se apropriam de técnicas da ficção.
É autor de livros como "O Reino e o Poder", sobre os bastidores do "New
York Times", "Honra Teu Pai", sobre uma família de mafiosos, e "Fama e
Anonimato", que reúne diversas reportagens.
Filho de um alfaiate de origem italiana, mostrou-se elegante como
sempre, de paletó, colete e sapato verdes, e gravata amarela. Na cabeça,
um chapéu branco, o único que trouxe para o Brasil. "Em minha casa,
tenho 30", contou. Leia trechos a seguir.
LITERATURA
Quando era um menino na escola, lia contos, pequenos romances, e fiquei
interessado nas narrativas. Mais tarde, me perguntei se eu poderia
contar histórias, mas não com personagens imaginários, e sim reais. Não
queria ser um repórter, mas contar histórias. Não precisava usar a
imaginação, mas sim passar tempo com as pessoas.
Pessoas nem sempre contam a verdade. São cuidadosas, pois não conhecem o
jornalista. Eu queria conquistar a confiança delas. E como fazer isso?
Aos poucos.
Você conhece alguém na rede social, sai, almoça, passeia e ficam
íntimos. Há um paralelo com o tipo de jornalismo que faço. Às vezes,
nós, jornalistas, somos sedutores. E não quero ser o sedutor de uma
noite só, mas sim um parceiro de uma relação.
JORNALISMO
Eu acho que jornalismo pode ser uma forma de arte.
Estudantes de jornalismo estão sempre reclamando que não têm emprego na
área. Quando comecei, eu pegava sanduíches para o pessoal. Era o jeito
de entrar.
Quem reclama que não tem tempo para um bom trabalho precisa arrumar esse
tempo. Você não deve ser um repórter como qualquer outro. Tem que ter
perseverança, ego e até arrogância.
Muitas vezes você escreve sobre pessoas famosas e não pode se sentir
diminuído, como se estivesse falando com alguma pessoa extraordinária.
Por isso, desde jovem me sentia importante.
LIÇÕES DE FAMÍLIA
Não tenho celular, não uso e-mail. Vou conhecer as pessoas. Minha
atitude vem da minha família. Minha mãe tinha uma loja de vestidos e meu
pai era alfaiate.
Aprendi com minha mãe: deixe as pessoas falarem, não as interrompa. Com
meu pai: o que é feito à mão é melhor que o feito com máquina.
PERSONAGENS
Nunca quis escrever sobre notícias do dia, o que os economistas ou
políticos disseram hoje. Queria escrever notícias não importantes, mas
escrevia tão bem que saía no jornal.
Quero escrever sobre pessoas que não estão nas notícias. Elas refletem a
sociedade e quero ser o cronista de suas vidas. No "New York Times",
fiz de tudo para ficar longe dos famosos. Sugeria um monte de
desconhecidos, e o editor dizia: "Quem se interessa?". Eu me interesso.
AUTOMÓVEIS
Uma vez fiquei um ano e meio num assunto para escrever um livro. Foi
entre 1980 e 1981, era sobre a indústria automobilística. Viajei com um
diretor da Chrysler, frequentei reuniões, fui até Tóquio. Mas decidi que
não queria mais. Seria muito sensacionalista.
Escrevi sobre mafiosos. Escrevi sobre pervertidos. Eu os respeito porque
não estavam se escondendo; mas o pessoal do automóvel não era o que
dizia ser. E expô-lo seria sensacionalista.
VENDEDOR
Uma reportagem começa na curiosidade. Você decide escrever sobre algo. Por quê? Porque te deixa curioso.
Aí, precisa achar alguém e propor que ele colabore. Como? Com técnicas refinadas de vendedor.
É como vender um aspirador. Se a pessoa já tiver, insista para ela tentar o seu.
Sou polido, não forço a barra. Acredito que o que vou escrever tem
valor, não é superficial. Chego na pessoa com boas maneiras, estou
sempre de terno e gravata, não importa se é o presidente ou lixeiro.
Aqui, por exemplo, está todo mundo mal vestido, mas não é meu problema (risos).
REPORTAGEM
Você diz à pessoa que ela tem uma história significativa e pergunta se
ela pode colaborar. Se ele estiver ocupada e tiver que ir ao dentista,
você pergunta se pode ir com ela. Eu procuro situações. É a arte de sair
com as pessoas.
MÉTODO
Não faço anotações enquanto a pessoa fala. Escrevo o nome, o dia, o
local. Depois, no hotel, peço a máquina de escrever emprestada e escrevo
tudo.
FIM DO IMPRESSO
Quando entrei no jornalismo, aos 20 anos, diziam a mesma coisa, diziam
que a televisão ia acabar com o jornalismo impresso. "Está tudo na tela,
para que ler no dia seguinte?".
Não acredito que vá acabar. Mas tem que ser de boa qualidade. Bons textos vão sobreviver porque são bons.